Virando a página…

Que coisa né… outro dia mesmo publiquei dois posts relacionados a Carreira. O primeiro foi o “Carreira versus Maternidade” e a seguir o post “Aprendendo a dar valor”. Confesso que meu sexto sentido estava apitando já fazia algum tempo. Eu sentia que algo ruim estava por vir. Comentei com alguns amigos sobre essa minha angústia e todos me respondiam com aquele jeitinho incrédulo: “Imagina! Vc é uma profissional de alta performance. 100% foco em resultado. Até parece que a empresa vai te dispensar…”. Mas eu sabia. Eu sempre soube. Esse sentimento começou a alguns meses atrás. E só crescia, crescia… Mulher é fogo né? Vocês podem falar o que quiser, mas a gente tem sim uma intuição aguçada. Acho que foi graças a minha perspicácia que o baque não foi tão grande quando o negócio de fato se concretizou: essa semana fui demitida. Estava a 5 anos na mesma empresa.

A photo by Grzegorz Mleczek. unsplash.com/photos/RlYsCMbF6EI

O que dizer …

Eu poderia relatar aqui um série de infortúnios: governo Dilma, crise, reestruturação do organograma, relacionamento, política interna, corte de gastos, novas diretrizes estratégicas… azar! E acho que no meu caso, foi um pouco disso tudo. Mas independentemente de qualquer coisa… quando o fato se consuma, o chão desaparece debaixo de nossos pés.

Sim: tive maturidade suficiente para entregar meu computador, agradecer e ir embora. Tenho 15 anos atuando no mercado de trabalho e acho que fui devidamente treinada para lidar com conflitos de maneira profissional. Business is business. A empresa não precisa mais de mim, obrigada e tchau. E eu juro … eu entendo. Empresa não é instituição de caridade. E nem deve ser. Caminhei tranquilamente da porta para fora e não olhei para trás. Estava realmente preparada para isso.

Mas quando entrei no carro…. Chorei. Lógico que chorei. Não vou ser hipócrita de dizer que não. Principalmente quando meu marido me ligou! Ao ouvir a sua voz, uma onda de pura emoção invadiu o meu coração e as lágrimas começaram a escorrer incessantemente pelos olhos enquanto eu dirigia de volta para casa. Eu havia pedido para minha mãe cuidar de minha filha essa manhã e, ao sair de casa cedinho, eu disse para ela: “Me espera para almoçar. É o tempo de entregar o computador e vir embora”. Ela ainda tinha esperança de que aquela reunião de ultima hora agendada para uma plena segunda-feira as 9h00 da manhã era para falar de amenidades. Mas eu sabia qual seria o desfecho.

Comunicar um desligamento não deve ser nada fácil principalmente quando a ordem vem top down. Afinal de contas, as organizações são feitas de pessoas. Quando a ordem vem lá de cima, “corta aí X% do seu quadro de funcionários” não tem muito o que fazer. Por mais que se tente colocar critérios, chega uma hora que a decisão é puramente emocional. Os estáveis, lógico que ficam! Gestantes, Cipeiros… lei é lei. Os de baixa performance são cortados em uma primeira leva. Mas depois minha gente, não tem jeito. Começam a cortar o pessoal que “manda bem”! Os líderes começam a ficar de mãos atadas. Bom… só sei que numa dessas eu fui a grande escolhida. Fui escorregando pelo filtro e não teve salvação.

Em nenhum momento me questionei: “porque eu e não aquele meu colega?” Sabe por quê? Porque eu já trabalhei com todo mundo ali. E eu sei o quanto aquela gente se dedica e é competente. Tanto quanto ou até mais do que eu. Todo mundo ali, sem exceção, tem o seu valor. Portanto, prefiro aceitar que, naquele momento, eu fui a escolhida. E ponto final. Sair de lá de cabeça erguida e sentir o respeito de todos ao meu redor, para mim já basta. Deixei a minha marca.

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Tem gente que se revolta. Que quer quebrar tudo. Cada um age de uma forma. Mas confesso que eu saí serena e tranquila. Com o sentimento de “missão cumprida”. Me dediquei muito ao negócio. E posso falar? Não fiz tudo isso só pela empresa. Fiz por mim também. Talvez eu encare a coisa de um jeito até prático demais, mas juro: A empresa para mim foi um instrumento para o meu crescimento profissional. Certamente hoje, estou muito mais preparada do que quando entrei. Faria tudo igual! Ou até melhor. O próximo que me contratar, vai se dar bem! 😊

Aí vocês me questionam: “Sua filosofia de vida é linda e maravilhosa, mas a pergunta que não quer calar: e a grana?”. Isso sim me preocupa. E bastante. Eu e meu marido sabemos que teremos que apertar os cintos e já conversamos com a Catarina sobre isso. Pessoal… de novo: eu prefiro olhar para barreira financeira como mais uma razão para nos unirmos. Sentarmos juntos e revermos as finanças. Faz parte. Se não pensarmos pelo lado positivo de tudo isso, a gente enlouquece. Ainda bem que um de nós ainda está empregado e que temos alguma reserva! Brinco com meu marido que agora vou entrar em um período de sabático: vou treinar o dia inteiro! Aposto que ele vai morrer de inveja! Brincadeira… De verdade… acredito que tudo acontece por uma razão. Provavelmente, lá na frente eu vou compreender…

Passei a noite toda amargurada e dormi muito mal. Mas aí acordei, tomei um café da manhã gostoso com a minha filha (o papai está viajando essa semana), fizemos tarefa e eu mesma a levei ao ballet. Mas deixa eu contar para vocês…

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Enquanto ela fazia a aulinha dela, eu aproveitei para ir trocar a placa do meu carro no Detran. Chegando lá… sabe aquelas peças que a vida prega na gente!? Aquelas lições de moral que só acontecem em momentos muito especiais de nossas vidas e que são simplesmente inesquecíveis? Justo hoje tive o privilegio de vivenciar um desses momentos únicos.

Estava eu sentada lá no banco, esperando a minha vez. Super tristinha. Olhando para o nada. Apenas observando o vai e vem de pessoas e a Neusa. A Neusa era uma das funcionárias do Detran. Correndo para cima e para baixo anotando as placas dos veículos, toda atarracada, coordenando tudo de forma muito profissional e “botando ordem na casa”. Neusa estava com um catéter no peito e toda carequinha. Nitidamente passando por um tratamento de câncer. Quando diminuiu o fluxo de gente, ela se sentou do meu lado e começou a tomar nota dos meus dados. Foi então que eu disse para ela: “Ontem eu perdi meu emprego”. Ela ficou surpresa quando eu, do nada, lancei essa notícia. Afinal de contas, ela nem me conhecia. Confesso que eu também me acharia uma louca de pedra, assim olhando de fora, em uma situação normal de temperatura e pressão. Mas eu estou em alfa, então vamos ignorar por ora essa minha demência repentina. Aí ela vira para mim e diz: “Trabalhar é bom né? Eu estou com câncer há 4 anos. Mas não largo essa loucura aqui por nada. Vou trabalhar até o final”. Neusa enfrenta há 4 anos um câncer de mama que através de uma metástase, chegou ao seu pulmão. A alegria de viver dessa mulher, me deu um tapa na cara. Eu acho que tenho todo direito de estar triste. Só o tempo para curar essa minha dor. Eu sou uma working mom, vocês sabem disso. E preciso de uma carreira para me sentir realizada. Mas o episódio de hoje veio para acelerar todo o processo de aceitação dessa minha nova condição. O problema da Neusa, é disparado pior que o meu. E olha como essa mulher enfrenta as adversidades de sua própria vida. …

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Só pode ter sido Ele. Que mandou um anjo para mim. Para abrir os meus olhos e me dar forças para continuar. Virar a página. Eu já estava aqui me achando a última das moicanas. Me dando por vencida. Afinal de contas, em meio a essa crise toda vai ser praticamente impossível me recolocar no mercado de trabalho. Mas gente… eu não sou uma perdedora. Pelo contrário. Eu nunca fui de baixar a cabeça.

Só sei que na parte da tarde, depois de deixar a Catarina na escola, dei uma fuçadinha na internet e adivinha? Até que tem bastante vaga para o meu perfil? Ou seja… Bora lavar essa cara, Dona Mayra! À luta! Se não der certo por uma via, vai por outra!

Obrigada Neusa, por dar uma passadinha em minha vida essa manhã.

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