O dia dos mortos segundo cultura mexicana

México!!!

Ai que país maravilhoso!!!

Eu sou mega suspeita, né gente! Vocês sabem que nossa expatriação de quase 3 anos no México foi extremamente marcante em nossas vidas. Arrisco dizer que essa vivência internacional foi uma das experiências mais incríveis que eu e minha família já tivemos. Voltamos ao Brasil ainda mais unidos e trouxemos conosco uma bagagem de conhecimento que é impossível mensurar! Ô saudade…

O México é um país extremamente católico. Quem nunca ouviu falar em Nossa Senhora de Guadalupe, a padroeira das Américas? nossa-senhora-guadalupejpg8272012174553A devoção do povo mexicano é uma coisa de outro mundo! Me lembro quando fomos escolher uma escola para Catarina. Muitas delas ainda adotavam políticas do século passado, separando os meninos das meninas! Juro por Deus! As garotas uniformizadas, vestidas de saia xadrez, meia 3/4 e cabelos impecavelmente trançados com gel e laços de fita! Igualzinho a Maria Joaquina da novela “Carrossel”! 😀 E quando fomos alugar o nosso imóvel, então!? A grande maioria das casas tinha altares decorados com santos e velas bem no meio da sala de estar! Enfim… nada contra… é que eu realmente não estava acostumada com esse tipo de coisa. imagesE olha que estudei em colégios de padres e freiras toda a minha vida! Vivi inserida no contexto religioso por anos à fio. Mas mesmo assim, achei um pouco estranho essa devoção exacerbada, especialmente no começo.

Tendo em vista todo esse fervor religioso lá no México nada mais natural do que celebrar as datas católicas com festa e alegria! Páscoa, natal, finados… ! Opa pera lá! Finados !!? Celebrado com “festa e alegria”!!??? Aí vocês me perguntam: “Se supõe que finados seja um dia triste em memória dos que já se foram… está doida mulher!?” . Não estou não, minha gente! No dia 1o de novembro, os mexicanos celebram “El Día de los Muertos” com uma baita de uma festa!!! Acredite se quiser!

Gente… eu não canso de falar: assistam o filme “Festa no céu” (o original em espanhol se chama “El libro de la vida”). Essa animação retrata perfeitamente a maneira como o povo mexicano celebra “El dia de los muertos” e como eles encaram o tabu da morte.

Mas antes deixa eu  dividir um pouquinho com vocês a nossa experiência celebrando Finados à moda mexicana:

  1. Altares: Durante o mês de outubro, as lojas ficam todinhas decoradas com altares e tumbas! No começo achei o negócio um pouco macabro, mas depois fui me acostumando. Fármacias, supermercados, cabelereiros… todo mundo arma um altar bem colorido na entrada do estabelecimento com a foto de algum ente querido que já se foi ou algum  personagem famoso como Jimmy Hendrix, Nelson Mandela etc. O pessoal costuma decorar o altar com alimentos (frutas, pães etc), fotografias, velas, incenso e bandeirolas coloridas picadas! Na escola de minha filha, nós mamães montávamos um verdadeiro cemitério bem ali no meio do pátio.
  2. Pan de muerto: É muito comum comer uma espécie de pão de leite polvilhado com açucar que o pessoal chama de “Pan de muerto”. Vendido na forma de bisnagas trançadas ou em forma de rosca decoradas, esse pãezinhos são a maior delícia de comer com manteiga e chocolate quente “Abuelita”.
  3. La Catrina: Criada por José Guadalupe Posada e originalmente chamada de “La Calavera Garbancera”, a caveira Catrina tornou-se o maior símbolo do “Dia de los Muertos”. A personagem, representada por um esqueleto de mulher vestido de gala e chapelão típicos do século passado, é uma crítica ao moral da sociedade, mostrando a insignificância do status social diante da morte. Nascido em Aguascalientes em 1852, cidade onde vivemos, José Guadalupe Posada foi um caricaturista muito famoso em sua época, idolatrado pelo famoso pintor e muralista Diego Rivera. “La Catrina” é mundialmente conhecida! E “cool” ! Tanto é que muitas pessoas chegam a tatuá-la!
  4. Panteones: Nessa época do ano, o trânsito simplesmente pára nas cercanias de qualquer cemitério, os chamados “Panteones”. Além de flores, os mexicanos levam aos túmulos dos entes queridos, o famoso “pan de muerto”, fotografias e presentes de maneira geral. Um pouco diferente da maneira como celebramos no Brasil… como eu disse: é tudo uma grande festa! As vezes tem até “mariacchi”
  5. Noche de leyendas: Os mexicanos adoram histórias macabras! O pessoal costuma se reunir ao redor de uma fogueira para contar histórias de terror e tomar uma boa taça de vinho! Aliás acabei de ter uma ideia: Vou ver se escrevo mais dois posts essa semana para contar para vocês as tenebrosas histórias de “La Leyenda de la llorona” e “Las momias de Guanajuato”! 😱
  6. Trick or treat: unknown-5Como o México está ali do ladinho dos EUA, a influência Ianque é  bastante predominante na cultura mexicana. Durante o mês de outubro, supermercados como Costco e Walmart começam a vender todas aquelas parafernálias de decoração de Halloween. E dia 31 de outubro a criançada faz a famosa peregrinação pelas ruas da cidade em busca de “doces e travessuras”!

A morte é algo que chega para todos nós. Mas a maneira como a cultura mexicana lida com a morte é simplesmente sublime! Quando alguém querido se vai, dói demais! Eu sei…  Lógico que dói! Quem fica por aqui sofre. A gente sente um vazio tão grande no peito que parece que nosso coração vai explodir! A saudade é eterna. Me lembro quando o meu sogro faleceu. Eu estava grávida de 8 meses. Ele nunca teve a oportunidade de conhecer a nossa filhinha. Ele não estava aqui de corpo presente quando a minha cunhada, após 5 anos de estudos, passou no concurso do ministério público. Ele não estava aqui quando compramos nossa casa. Ele não estava aqui durante os momentos mais marcantes de nossas vidas… e isso dói. Mas uma coisa é certa! Ele é SEMPRE lembrado! Meus avós, minha tia Lena e meu tio Zé, meu querido amigo Rô Tenório … todos eles! São SEMPRE lembrados com muito carinho. Todos eles passaram por nossas vidas e deixaram uma marca eterna. Minha avó Yaya que me preparava bolacha de água e sal com manteiga e chocolate granulado. A minha avó Neva que me ensinou todos os macetes de um jogo de Truco! Meu avô Juca que me levava para tirar o leite da vaca lá na roça. O yayo, que me dava um baile nos jogos de dominó. Minha tia Lena que fazia o melhor bife acebolado do mundo! Meu tio Zé que vivia presenteando a molecada com canetinhas do Paraguai! O meu querido amigo Rô, que esteve ao meu lado em um dos momentos mais difíceis de minha vida, quando passei por uma cirurgia de remoção da trompa, devido a uma gravidez ectópica. Como esquecer? Impossível!!! Essas pessoas passaram por minha vida e deixaram uma marca profunda em meu coração.

Na cultura mexicana, a morte é vista como uma mera passagem. Todos nós nos reencontraremos um dia… lá do outro lado. Afinal… esse é o ciclo da vida!

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