Em busca do meu Estado de Fluxo

Outro dia estava lendo um artigo de meu amigo e coach de ciclismo, Gabriel Vargas e me pus a pensar. Sobre as coisas da vida… vocês me conhecem. Reflexões e mais reflexões. Bom, foi ele que me apresentou o conceito de Estado de Fluxo ou Fluidez (Flow State). Fiquei simplesmente encantada com o tema. Talvez porque eu mesma já tenha tido  a experiência de “fluxo” alguma vezes durante a minha vida portanto sabia exatamente do que ele estava falando. Me identifiquei. E olha que eu nem sabia que esse “sentimento” era objeto de estudo. E mais: é algo super raro. Dizem que apenas 10% da população já alcançou esse nível de flow. Talvez porque são poucas as pessoas que realmente VIVEM. A grande maioria simplesmente EXISTE, como já dizia Oscar Wilde. Enfim…

Mas deixa eu explicar um pouco sobre esse tema antes de começar a discutir as minhas filosofias malucas.

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A Teoria do Fluxo

De acordo com o professor e psicológo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, o Estado de Fluxo é aquele onde o indivíduo encontra-se totalmente imerso em determinada atividade. Completamente alheio ao que se passa ao seu redor. Plenamente focado no seu próprio “eu”. Esse estado ocorre em frações determinadas de tempo e é considerado tão sublime, mas tão sublime, que é como se a pessoa tivesse sua “existência temporariamente suspensa”. Pessoas que atingem o estado de fluxo vivenciam o que eles chamam de “distorção temporal”, ou seja, quando nos damos conta de que “nem vimos o tempo passar”. E o mais interessante de tudo isso: no Estado de Fluxo, o que importa é a trajetória, não o resultado do processo propriamente dito. Já ouviram aquele ditado em inglês: “Enjoy the ride”? Ou até mesmo do português: “O melhor da festa é esperar por ela!”. Pois é … e esse é o Estado de Fluxo.

Mihály é autor de inúmeras obras relacionadas aos estudos da felicidade e da criatividade. Mas ficou mundialmente conhecido a partir de 1970 através de sua pesquisa a respeito do Estado de Fluxo. Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre esse estudioso, clica aqui nesse vídeo.

Em busca da felicidade

O Estado de Flow, pode ser alcançado de inúmeras maneiras. Através do esporte. Através do trabalho. Através das artes. Não importa! Deixa eu contar para vocês as minhas experiências de Estado de Flow. Façam uma reflexão. E tentem identificar momentos de suas vidas onde vocês atingiram esse tão maravilhoso plateau.

  1. No parto da Catarina: Eu confesso que estava morrendo de medo da tal da anestesia nas costas e da cesárea propriamente dita. Por outro lado a expectativa da chegada da Catinha era muito grande. Não contratei filmagem nem nada. Queria que aquele momento fosse só nosso. Meu e do Valdinho. Me lembro de fechar os olhos. Mesmo assim passava muita luz através das pálpebras. E tudo brilhava. No começo escutava os ruídos dos equipamentos ao meu redor mas depois parece que veio um silêncio. E de repente lá veio ela. Bem do ladinho do meu rosto. Com um gorrinho cor de rosa e um par de olhos castanhos bem abertos. Chorando. Eu cantei para ela uma música que sempre cantava para o meu barrigão. Ela parou de chorar imediatamente. E olhou profundamente dentro dos meus olhos. Foi algo tão intenso. Era como se ela estivesse penetrando a minha alma. Inexplicável. E aquilo tudo pareceu durar uma eternidade embora não tenha levado mais do que alguns segundos. Foi o êxtase. O dia mais feliz da minha vida. E hoje sinto que nós duas temos uma conexão tão grande que é difícil de explicar. photo-1427243713560-583403bf9987
  2. No trabalho: Foi quando eu tive que desenvolver um business case e precisei estudar muito!!! Foram dias de trabalho. Tive que trocar figurinhas com um monte de gente e preparar uma mega de uma apresentação. Enfim… minha mãe me dizia que eu entrava em outra dimensão quando estava concentrada no meu computador. Foi bem na época que eu trabalhava de home office então ela “via” nitidamente o meu estado de imersão quando foi me visitar lá no México. Era incrível: eu esquecia de comer. E tinha até que colocar o despertador para não esquecer de pegar a minha filha na escola. Só para vocês sentirem o nível de concentração da pessoa. Depois de tudo pronto, apresentei o meu trabalho em inglês em uma conference call com mais de 50 pessoas. Até preparei um texto para ler lá na hora e garantir que todos os pontos fossem cobertos com harmonia e com uma certa lógica de raciocínio. Gente, pára tudo! Entrei em um nível de concentração tão grande que eu simplesmente não vi o tempo passar. Era como se só estivesse eu ali. E mais ninguém. Minha apresentação foi tão fluida e estruturada que ao final, só me lembro de ver o meu Skype pipocando de mensagens de meus colegas e amigos mais próximos elogiando o trabalho. Aí acordei!

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  1. No ballet: Nossa… já faz tantos anos! 🙂 Mas me lembro como se fosse ontem. Meu primeiro Pas de Deux. Eu tinha catorze anos. Praticamente sozinha naquela palco, sob os holofotes, dançando na ponta. Sai de trás da coxia primeiramente tremendo de ansiedade e nervosismo. Teatro lotado. Depois de 10 segundos, me perdi na música “O Fantasma da Ópera”. Quanta emoção. Eu era tão mocinha. Quando a música acabou, eu fiz uma bela reverência de agradecimento à plateia. Mas não conseguia ver nada. A luz era muito intensa. Só conseguia escutar mesmo os aplausos. Uma espécie de eco. De repente, acabou. As luzes se apagaram e eu me retirei do palco. Foi incrível.

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  1. No triathlon: Ironman 70.3 Georgia. Esse foi bem recente. Entrei em Fluxo totalmente por um período de mais de 6h. Na natação, na bike e na corrida. Eu não pensava em absolutamente nada. Só me concentrava na cadência dos movimentos. E eu falava comigo mesma. Parecia uma doida varrida. Me dava instruções 😹. Quando eu ouvia minha própria voz era como se eu estivesse ali fora do meu próprio corpo. Eu procurava gerenciar a dor e a respiração. Meu batimento cardíaco já é naturalmente muito baixo. Depois de tanto tempo fazendo esporte de endurance, ele não sobre por nada. Para vocês terem noção, ele fica na faixa de 56   batimentos por minuto no estado de descanso, quando a média de mulheres da minha idade é por volta de 76. Enfim… fiquei muito focada. Em alguns momentos, na corrida, quando eu via minha família, eu sorria. Mas logo depois eu me centrava em mim mesma novamente. Depois que cruzei a linha de chegada, aí sim veio a dor. A câimbra. A fome. A dor de cabeça. O cansaço. Mas até aquele momento, era como se eu estivesse gravitando.

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Conclusão

E a vida é isso aí: cada um escrevendo a própria história e buscando o seu próprio estado de fluxo. A trajetória continua. E se você faz parte dos 90% da população que jamais experimentou o Estado de Fluxo, mexa-se. A vida é curta. Você não pode passar por essa vida sem ter tido essa fabulosa experiência.

E viu: foque em si mesmo! É mais ou menos que nem regra de segurança de avião: “Em caso de despressurização, coloque primeiro a máscara em si mesmo e depois ajude o próximo!”. Pode parecer egoísmo, mas não é não. Cuide de si mesmo. Pois quando você está bem consigo mesmo, tudo ao seu redor entra na sua ressonância. 

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Encontrar o seu propósito não é tarefa fácil. Você realmente tem que sair de sua zona de conforto. Dói. Temos que ter paciência e manter sempre um pensamento positivo. Eu por exemplo estava conversando outro dia com o Valdinho sobre as minhas frustrações mais recentes. Tive que dar uma pausa em minha carreira. Não ganho um tostão. Nem ao menos tenho um Social Security Number, e acreditem em mim, sem esse documento é como se não tivéssemos identidade nesse país. Enfim… estou passando por uma fase difícil. Tentando encontrar o meu lugar no espaço e no tempo. E de quebra fico sofrendo por antecipação: “E se eu não arranjar emprego? E se a Catinha não passar no BOG Test e não se qualificar para ir para o College? E se não aprovarem nosso crédito para o Mortgage da casa? E se… e se… e se…” Ahhh benhê !!! Nessa horas eu me olho no espelho e me dou um tapa na cara para ver se acordo: Pára Mayra !!!! Quanto chororô!!! Entra no seu eixo aí, senão a casa vai cair! Deus que me livre e guarde! Ou vocês acham o que? Que eu vivo com esse sorrisão estampado no rosto e não tenho problemas? Ô meu Deus … quem dera! Tô quase tendo um piripaque por aqui. Já engordei 4 quilos de nervoso. Mas essa semana me dei um chacoalhão.

Meu conselho é o seguinte: Defina uma meta e  foque em si mesmo. Não desista. Mantenha um pensamento positivo. O fluxo é mais ou menos como o amor: você não levanta simplesmente um belo dia dizendo: “Hummm, nossa, que dia mais lindo, acho que hoje vou dar um rolê e encontrar um grande amor!”. Não! Literalmente não! Tudo o que você pode fazer é criar as condições para que o Estado de Fluxo te encontre. Acredite em mim: você saberá quando ele chegar.

E lute. Já dizia Sigmund Freud:

“Um dia, quando olhares para trás, verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste.”